Fantasmas | Ghosts /

Memórias de histórias passadas | Memories of past stories

O hotel da piscina que se lembra das crianças

O Hotel Sun Park, em Oeiras há bem pouco tempo fervilhava com visitantes, hóspedes em viagens de negócios ou em lazer, vidas cruzadas em extensos corredores vermelhos e em breves palavras cordiais de circunstância.

O hotel tem vários pisos, a maioria dos quais naturalmente reservada a quartos para hóspedes. Os quartos eram quase todos iguais: um pequeno corredor ladeava a casa de banho e dava para um espaço de médias dimensões, onde se encontrava a cama e o mobiliário de apoio, junto a um roupeiro com portas de vidro.

Do lado contrário, uma pequena varanda que, com sorte, permitia avistar a bonita Serra de Sintra, ao longe, erguendo-se alterosa como um gigante protector.

Os quartos e as casas de banho tiveram o mesmo destino: o vandalismo gratuito, tantas vezes testemunhado neste tipo de edifícios. O dono do hotel terá retirado alguma mobília. O resto do conteúdo foi roubado – há claros indícios no caso de metais e cablagem – e meramente destruído sem qualquer respeito pela sua história e pelo seu dono.

No andar de cima, os escritórios do director do hotel, o gabinete jurídico e o departamento de contabilidade partilham este fado. Centenas de dossiers espalhados pelo chão, vidros partidos, fotografias pessoais caídas junto a vasos de plantas que se agarram à vida, sonhando com uma redenção que não irá chegar nunca.

O piso térreo oferece mais destruição e um vazio emocionado e silencioso, quebrado aqui e ali por pequenos murmúrios de vento a passar nas frechas abertas ou nas portas escancaradas das salas de reuniões. Junto à recepção, a entrada para o restaurante, para o bar e para a cozinha. No fundo do corredor, os balneários e uma pequena piscina interior, cheia de pedaços de madeira, de lixo e de plantas moribundas. Lá fora, mais uma piscina vazia, com paredes azuis que parecem levar o visitante aos tempos em que crianças brincavam alegres na água enquanto os seus pais liam descontraidamente o jornal à sobra. A piscina azul do piso zero tem memórias às quais se agarra, pedindo em sono lento novas gentes, novas vidas que lhe dêem vida. A piscina azul do piso zero morre aos poucos, à medida que quem por ali passou se esquece dela. Vai-se rendendo ao choroso destino que partilha com o hotel. A piscina azul do piso zero adormece as folhas murchas, as mesas com madeira podre e os pneus, fazendo deles as suas crianças e pintando – só para si – um quadro muito diferente que os dias que correm lhe reservam.

 

O dono do Hotel Sun Park, Antas da Cunha – que pode ser visto aqui, na penúltima foto – viu-se envolvido numa guerra com a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), uma batalha burocrática que envolveu falta de licenciamento e notificações antigas (de 2005) que informavam o empresário da impossibilidade de o hotel se manter em funcionamento.

O Sun Park foi fechado em 15 de Março de 2007 pela ASAE, por falta de licenciamento. O proprietário foi constituído arguido pela prática de desobediência continuada. Até hoje, o hotel mantém-se à espera de um destino que possa chamar seu. Sóbrio e abandonado, agarrado a memórias de gentes que fizeram a sua história, mantém-se de pé, chorando triste e ouvindo o riso das crianças, que ecoa ao longe nas paredes vazias da piscina azul do piso zero.

 

 

 

 

 

 

 

nota: na exploração deste local, o fotógrafo não danificou a estrutura ou o conteúdo do hotel. A visita foi feita com grande reconhecimento pelo legado material e histórico do mesmo, bem como com o maior respeito pelas memórias de quem trabalhou no Sun Park. Algumas das fotos estão (com dimensões mais generosas) na galeria “Fantasmas”, na página principal. Uma gradecimento especial ao Davide Ribeiro e João Martins pelas informações sobre a localização, e ao João Faria pelo trabalho de pesquisa.

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