Fantasmas | Ghosts /

Memórias de histórias passadas | Memories of past stories

A fábrica das memórias

Mapol, Sociedade Industrial de Mármores Portugueses

Visitei recentemente esta fábrica desactivada há décadas junto a Loures. Dedicada durante anos ao fabrico de artigos em mármore e rochas similares, fechou as portas, pelo que sei por volta de 1980. Desde então, as instalações ficaram votadas ao abandono, partilhando as suas memórias com animais das sombras e com a triste chuva de inverno. O complexo é constituído por vários edifícios. Além de armazéns e de salas de tratamento de matéria-prima, existe um pequeno edifício de escritórios, onde ainda é possível consultar documentos de facturação e de notas de encomenda.

No início da jornada, parei no armazém principal, onde é possível encontrar pedras de mármore por trabalhar, bem como secretárias e pneus (!), juntamente com alguns registos de encomendas preenchidos à mão por quem aqui trabalhou. É um edifício comprido, com janelas laterais por onde a luz entra, banhando suavemente o chão sujo de poeira e pedaços de pedra.

No fundo deste edifício há umas escadas de madeira. Através delas, pode aceder-se  a um conjunto de pequenos escritórios – em muito mau estado – onde aparentemente toda a parte burocrática da empresa era tratada. Aí, há vestígios das vidas que deixaram memórias na Mapol: botas, casacos, livros com registos e notas de encomenda, entre outros.

Depois deste edifício, pode visitar-se um prédio de três andares. Deduzo que se trata do local onde estavam colocadas as máquinas de corte e de tratamento das pedras, pela sua dimensão. Vazio, este local pouco mais é do que uma estrutura de paredes retocadas, com áreas amplas e sem grande interesse.

No caminho de volta ao carro, tive oportunidade de parar no primeiro edifício. A entrada estreita desafia os menos atléticos, mas vale a pena o esforço. Lá dentro, artigos de higiene pessoal, armários com documentos e arquivos de registo da laboração da Mapol partilham a solidão com roedores de dimensão considerável. A luz serpenteia entre as pequenas divisões como uma cobra tímida, que visita a medo os mais recônditos cantos desta local, outrora crepitando de vidas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

nota: na exploração deste local, o fotógrafo não danificou a estrutura ou o conteúdo da fábrica. A visita foi feita com grande reconhecimento pelo legado material e histórico da empresa, bem como com o maior respeito pelas memórias de quem trabalhou na Mapol. Algumas das fotos estão (com dimensões mais generosas) na galeria “Fantasmas”, na página principal.

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