Fantasmas | Ghosts /

Memórias de histórias passadas | Memories of past stories

A estação fantasma

Pertencente à linha de caminhos-de-ferro da linha do Douro, o troço entre o Pocinho e a Barca d’Alva foi inaugurado em 9 de Dezembro de 1887, o mesmo dia em que foi aberto o troço entre a Barca e La Fregueneda. A linha seguia por terras de Castela para a Meseta Ibérica, rumo a Salamanca e a histórias de outras gentes e de outros lugares. O seu tempo áureo parece ter sido no início do século XX, altura em que o director da Divisão de Minho e Douro dos Caminhos de Ferro do Estado quiz introduzir carruagens de primeira classe nos serviços entre a Barca e o Porto.

A estação ficou inalterada durante muito tempo, sendo o ano de 1933 marcado por obras efectuadas no edifício de passageiros da estação. Obras que deixaram o legado que podemos ver ainda hoje, numa visita à estação que ladeia a margem esquerda do rio Douro. Tal como grande parte das regiões fronteiriças do norte de Portugal, também a Barca d’Alva sofreu as consequências de alterações no planeamento territorial de Espanha. O troço internacional entre a Barca d’Alva e Salamanca revelou-se um fracasso financeiro e levou à falência do Sindicato Portuense no início do século XX, e à sua integração na Companhia das Docas do Porto e dos Caminhos de ferro Peninsulares. A ligação internacional passaria a partir de então a ser gerida pela Compania de Ferrocarriles de Salamanca até à fronteira com Portugal. O declínio final da estação começou em 1984, quando o estado espanhol encerrou o troço ferroviário entre La Fuente de San Esteban e La Fregueneda, o que levou a que a ligação desta última localidade espanhola à estação da Barca fosse também interrompida.

Depois de eliminada a ligação ao país vizinho, deu-se o rompimento do cordão umbilical que ligava por terras lusas a Barca à linha do Douro: em 1988, foi desactivado o troço entre o Pocinho e a Barca d’Alva. Acabava assim uma história de 100 anos de serviço a portugueses (e espanhóis), e dava-se início a um período de desprezo que perdura até os nossos dias.

Desde então, este gigante composto por vários edifícios foi deixado ao abandono que caracteriza em muitas situações o interior norte do país. O principal edifício da estação é composto por dois pisos, mas subir ao segundo piso é um teste de sorte que nem todos os visitantes quererão arriscar.

O armazém de mercadorias conta apenas com o telhado, já que as paredes de madeira foram destruídas. O último edifício partilha a sorte do primeiro. Mantém-se a torre com o reservatório de água intacta, tal como algumas secções dos carris que levam as memórias da estação até Espanha.

Deixo os meus estimados leitores com a melhor imagem possível dos tempos áureos da estação de Barca d’Alva, pintada com as palavras de Eça de Queirós, que descreve a estação da Barca em “A Cidade e as Serras”:

«Era uma Estação muito socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes e outras rosas em moitas, n’um jardim, onde um tanquesinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido, de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio». — Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, p. 127-128

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes: Internet; (1 de Setembro de 1905) “Linhas Portuguezas“. Gazeta dos Caminhos de Ferro (425); (16 de Janeiro de 1934) “O que se fez nos Caminhos de Ferro em Portugal no Ano de 1933“. Gazeta dos Caminhos de Ferro (1106); MIRANDA, António Augusto Pereira de. (16 de Abril de 1903). “Parte Official: Relatório acerca do estado da viação ordinária nas suas relações com as linhas férreas do Minho e Douro“. Gazeta dos Caminhos de Ferro (368).

nota: na exploração deste local, o fotógrafo não danificou a estrutura ou o conteúdo da estação. A visita foi feita com grande reconhecimento pelo legado material e histórico da mesma, bem como com o maior respeito pelas memórias de quem lá trabalhou. Algumas das fotos estão (com dimensões mais generosas) na galeria “Fantasmas”, na página principal.

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